
Quando o árbitro apitou o fim do jogo entre França e Espanha, veio-me à mente o estádio Sarriá, na Espanha, onde a brilhante seleção brasileira foi eliminada da Copa de 1982 pela eficiente, disciplinada e pragmática Itália. A turma da minha geração vai entender. Mas, por outro lado, foi só uma lembrança, porque a atual seleção espanhola dá de dez naquela Itália - e no Sarriá, o Brasil fez gols, esteve perto de avançar, o que não foi o caso da França. Há muito tempo eu não via uma atuação de um time, no caso, a Espanha, que beirasse a perfeição. Porque a Fúria conseguiu colocar no jogo 100% de sua escola consolidada desde 2008, não apenas no quesito posse de bola, mas também na siderúrgica eficiência defensiva que fez com que a máquina de gols francesa não chegasse perto do gol - parecia um time pequeno. Não é fácil, porque falamos de uma França tem um quarteto ofensivo histórico, que marca muitos gols, que era merecidamente apontada por 90% dos analistas como favorita a ganhar a Copa. Mas a Espanha chega a 37 jogos sem perder, sofreu apenas um gol no Mundial, é a campeã europeia. Ainda assim, só conseguiu derrubar a Bastilha novamente porque cada jogador espanhol jogou o que sabe e o que não sabe. A Espanha é a última nova escola do futebol e, nesse cenário, deu aula.
No vídeo que ilustra este post, no qual eu analisava, na véspera, as perspectivas de duelos no jogo, estão algumas das explicações para a vitória espanhola sobre a França - a sétima nos últimos 11 jogos entre os dois gigantes. Vejamos:
- Eu dizia que seria um dos maiores duelos da história das Copas. Foi. Será lembrado por décadas (por mais que as novas gerações tendam a achar a história e as memórias como coisas supérfluas), como foram as tragédias do Brasil em 1950 e 2014, a maior das vitórias brasileiras na final da Copa de 1970, a final entre Argentina e França em 2022, em nível de clubes a vitória do Fluminense de Parreira sobre o Corinthians na semifinal do Brasileiro de 1984 (2 a 0, no Morumbi)... e a derrota brasileiro no Sarriá, em Barcelona. O Espanha 2 x 0 França será lembrado como a supremacia de um tipo de jogo coletivo pensado sobre a força e o altíssimo talento individual.
- Citei que o caminho da Espanha poderia ser aberto no confronto Yamal x Digne, pela direita. Foi. No primeiro gol de maneira direta, pênalti de Digne em Yamal. Um lance decisivo porque o jogo estava equilibrado e a desvantagem tirou a França do prumo e deu à Espanha ainda mais segurança para executar seu jogo de risco. E no segundo, também pela direita, Porro fez um simples 1-2 com Olmo e saiu na cara do gol. Onde estava Digne?
- Depois, Cucurella. Coloquei a dúvida sobre quem marcaria quem, Curella iria se conter para segurar Dembelé ou o francês iria recompor? Cucurella fez as duas coisas, atuação gigantesca. Na frente deu opções, mas a Espanha sabia que o corredor esquerdo era mais perigoso por causa de Dembelé, e forçou mais, inteligentemente, pela direita om Yamal e Porro. E na marcação, Cucurella foi gigantesco. Dembelé simplesmente não jogou, e estamos falando do melhor jogador do mundo!! Houve uma bola no segundo tempo, perto da pequena área, que Mbappé se preparava para concluir e, do nada, surgiu Cucurella para mandar a córner. A expressão facial do francês dizia "de onde surgiu esse cara?"
- Coloquei ainda a questão de Cubarsí. Jogador do Barcelona, 19 anos, fundamental para e Espanha ter tomado apenas um gol nesta Copa, potencial para, em pouco tempo, ser o melhor zagueiro do Mundo. Mas como se sairia diante de um foguete atômico como Mbappé? Saiu-se como sempre: quase perfeito. Mbappé mal tocou na bola. Vou repetir, atenção: Mbappé mal tocou na bola (falamos de alguém que vinha de três gols numa final de Copa). Claro, é preciso colocar em perspectiva que o que a Espanha fez no meio-campo evitou que a bola chegasse muito no ataque francês. Mas as poucas que foram pararam em Cubarsí - e, justiça se faça, em Laporte. A Espanha é a melhor do mundo em defender atacando.
- E, por fim, o duelo no meio-campo. E aí, precisamos falar de dois nomes: Rodri e Luis de La Fuente. O primeiro deu um recital, parecia que a Fifa havia feito uma exceção e permitido que Rodri jogasse de fraque, cartola e com uma batuta na mão. O controle do setor foi tamanho que, se eu previa um duelo entre ele e Olise, este último teve de ser substituído porque estava cansado (de não conseguir fazer nada). E De La Fuente pensou em algo, que precisa ser perfeito, e que a Espanha faz de um jeito único: controle do meio-campo. Deschamps sabia o que tinha pela frente e foi cauteloso: entrou com Tchouameni, mais marcador, na vaga de Koné, ao lado de outro marcador, Rabiot, e fez Olise se preocupar mais com Rodri do que em armar os ataques franceses. Já a Espanha deixou Yamal solto e colocou cinco no meio campo: Rodri, Olmo, Fabian Ruiz, Baena e Oyarzabal (este às vezes mais recuado, ao lado de Rodri). Superioridade matemática para a Espanha. A França não conseguiu impedir a posse espanhola no setor, porque não são toques entre jogadores estáticos, a movimentação dos jogadores da Espanha permite que o toque seja rápido, veloz, o adversário não tem pernas para acompanhar.
Ah, mas esse jogo espetacular e histórico da Espanha garantiu-lhe o bi mundial? Claro que não, falta "apenas" uma final. Mas sem duvida intimida quem for seu adversário. A Espanha do tiki-taka em 2010 não tinha pontas nem profundidade, ganhava no refino técnico, no passe e na paciência para achar um gol. A da Euro 2024 acrescentou essa escola os pontas e a profundidade com Yamal e Nico Williams. Com os graves problemas físicos destes (Yamal conseguindo melhorar aos poucos), a Espanha 2026 é incrivelmente semelhante à de 2010. Que ganhou. Como ganhou a Itália em 1982, depois do Sarriá.
No fim do vídeo, eu dizia, sobre favoritismo, que França e Inglaterra o tinham. Mas que, se domingo, no Met Life Stadium em New Jersey, der Espanha x Messi, não dá para considerar zebra. Metade do favoritismo caiu como a Bastilha...
P.S. Outra ironia quando falamos em França e Espanha, é que o melhor time francês joga conceitualmente com a imposição espanhola, o Paris Saint-Germain. Ahn... sim, treinado por um espanhol, Luiz Henrique, que começou a vencer quando trocou individualidades por jogo coletivo.