
A eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 pode ser muita coisa. Pode ser triste, pode ser frustrante, pode ser incompatível com o imaginário construído em volta de um país, da camisa que veste esse país, das cinco estrelas que enfeitam a camisa que veste esse país. Mas surpreendente ela não é.
Só quem andava distraído pode estar chocado. A Seleção virou isso aí: um time de futebol meia-boca que cai para Bélgicas, Croácias e Noruegas. Que fecha as Eliminatórias na quinta colocação. Que termina a Copa América atrás do Canadá.
E daqui a quatro anos? Vamos ouvir novamente a balela de que a Seleção ainda é essa Coca-Cola toda? Vamos ver o presidente da CBF assegurando que o Brasil será campeão, como aconteceu no dia da convocação? Vamos tatear, cegos e surdos, até a eliminação para o próximo país ascendente?
Neymar chora após derrota do Brasil para a Noruega — Foto: James Lang/Reuters
O Brasil teve a eliminação que merecia. Talvez aí esteja o ponto inicial: reconhecer que a Seleção, na figura da CBF, implorou por isso. Todos os erros possíveis foram cometidos nos quatro anos que separaram as últimas Copas, a começar pelo caos administrativo – que contaminou diretamente o trabalho na Seleção e ficou explícito no amadorismo com que foi tratada a escolha do(s) treinador(es) no período.
Plantou-se bagunça para se colher a vergonha da pior campanha em Copas desde 1990. Mesmo os acertos deste ciclo, como a necessária contratação de um treinador estrangeiro, ocorreram com ressalvas – neste caso, uma demora que se mostrou fatal.
Contra a Noruega, o Brasil evidenciou o atraso na sua formação como equipe. Embora a Seleção tenha tido mais e melhores chances, foi o time europeu quem decidiu o tempo, escolheu o ritmo, ditou o humor do jogo. O Brasil teve 35% de posse porque a Noruega determinou que seria assim. E ela conseguiu determinar que seria assim porque é superior, coletivamente, ao Brasil.
No calor da derrota, é natural que se busque no micro os culpados por um problema macro. Bruno Guimarães errou o pênalti, Endrick perdeu um gol claro, Gabriel Magalhães foi vencido por Haaland no alto, Carlo Ancelotti mexeu mal: tudo verdade. Mas isso não explica a passividade gritante na marcação, a dificuldade para controlar o jogo, a incapacidade de encontrar soluções para mudar o rumo da partida.
E aí não tem quem salve: nem a esperança depositada no jovem Endrick, nem a miragem encarnada no velho Neymar. Nos minutos finais do jogo, estabelecemos um novo limite para o grotesco quando o camisa 10, com a imaturidade habitual, deu uma pancada em Odegard e depois trocou provocações com o goleiro Nyland ao fazer, de pênalti, um gol que não servia para coisa alguma.
A vida segue, outra caminhada começa, e o Brasil já larga diante de uma encruzilhada: deve decidir se seguirá apegado às platitudes habituais (mística, camisa, talento, tradição) ou se será capaz de reconhecer que hoje tem uma equipe de segundo escalão. Só em um dos trajetos haverá alguma esperança para 2030. Uma nova Seleção precisa brotar da consciência de nossa mediocridade.