Padre no rádio e "placar" na igreja: o casamento que dividiu atenções com Brasil x Holanda em 94

Padre no rádio e

O dia 9 de julho de 1994 ficou marcado para milhões de brasileiros pela emocionante vitória da Seleção sobre a Holanda por 3 a 2 nas quartas de final da Copa do Mundo dos Estados Unidos. O jogo em Dallas prendeu a atenção de toda a nação, que estava de olho na dupla Romário e Bebeto em campo.

Hélcio e Maristela durante casamento em Araraquara — Foto: Arquivo pessoal

No entanto, milhares de quilômetros do estádio, na Paróquia São José, em Araraquara (SP), outra dupla fazia sucesso. No mesmo horário da partida decisiva, Hélcio Andrei Surian e Maristela Moura Leite Surian davam o “sim” eterno diante do altar em cerimônia conduzida por um padre holandês, que estava em missão religiosa no Brasil. O sacerdote Adrianus Cornelis Johannes van Luy, pelo contrário, não era rival naquela tarde.

- O nosso padre, que era o nosso diretor espiritual e que ia fazer o casamento, era holandês. Eu perguntei pra ele se ele ia torcer pro Brasil ou para Holanda e ele ficou bravo comigo. Falou assim: “Eu sou mais brasileiro do que você, já estou há bastante tempo aqui no Brasil” - lembra Maristela com largo sorriso no rosto.

Hélcio e Maristela se casaram em Araraquara (SP) no mesmo dia e hora de jogo decisivo do Brasil contra Holanda — Foto: Arquivo pessoal

Hélcio e Maristela se conheceram em 1988. Participantes de um grupo de jovens da paróquia, namoraram por cinco anos e meio e marcaram o casamento para o fatídico 9 de julho de 1994, às 17h30. Nem sonhavam, no entanto, que poderiam ter como concorrente o Brasil nas quartas da Copa.

A data foi escolhida por conta da agenda de Maristela, que era professora e tinha férias escolares no período.

- Seria em 1994, em janeiro, mas a reforma da casa ainda não ia terminar. Então, mudamos para julho. Aí escolhemos a data. Pensamos: “O primeiro sábado de julho é bom né, porque depois temos o mês todo pra curtir de férias”. Nem passou pela nossa cabeça que isso seria um período de Copa do Mundo - explicou Hélcio.

Brasil foi tetra da Copa em 1994 — Foto: Phil O'Brien/EMPICS/Getty Images

A coincidência das datas só foi percebida após a vitória brasileira sobre os Estados Unidos nas oitavas de final. Com a classificação, ficou definido que a Seleção voltaria a campo justamente no dia e horário do casamento.

- Foi um ano que o Brasil entrou na Copa bem desacreditado. A gente estava meio desanimado. Mas como nós somos uma família que gosta de juntar todo mundo, a gente juntava todo mundo pra ver os jogos do mesmo jeito. E aí o Brasil foi indo, indo, e a gente achava que não ia muito longe - disse Maristela.

- Passou a primeira fase, aí vieram as oitavas de final, Brasil contra os Estados Unidos. E o nosso casamento marcado, a gente fazendo os preparativos. [...] Terminado o jogo, o narrador fala: “Bom, agora o Brasil passa para as quartas de final, então a gente se encontra sábado, dia nove de julho, às 17h30” - contou Hélcio.

Lance de Brasil x Estados Unidos nas oitavas de final da Copa de 94 — Foto: Getty Images

“Não vou adiar nada”

A notícia rapidamente virou assunto entre os convidados. Com o casamento marcado para o mesmo horário de uma partida decisiva para o Brasil, muitos chegaram a procurar os noivos para saber se a cerimônia seria cancelada.

- Eu, como noiva, eu sabia que ia ter o jogo, mas deixa o jogo, eu vou casar e pronto. Só que os convidados começaram a ligar na minha casa para perguntar se eu tinha cancelado o casamento, ou adiado para outro dia, porque ia ser o jogo do Brasil e como eles iriam ver o jogo no casamento? Falei: “Gente, não tem como. Está tudo pronto, não vou adiar nada” - compartilhou Maristela.

Maristela em casamento em Araraquara (SP) — Foto: Arquivo pessoal

- Era dali cinco dias. Não tinha tempo para desmarcar, porque o convite era convite de papel entregue em mãos, viagem marcada de lua de mel também - disse Hélcio.

- Não tinha celular, não tinha nada nem de saber que dia poderiam ser os jogos, a gente sabia só os primeiros, os jogos depois a gente não sabia que dia ia ser. Mas para falar a verdade, naquela época a gente estava pensando mais no casamento que a gente nem ligou pra Copa. Estava tão preocupado em casar que só marcamos.

Entrada de Maristela no casamento foi ao som de fogos de artifício — Foto: Arquivo pessoal

Atenção dividida

Mesmo com a concorrência do jogo, a Paróquia São José ficou lotada para o casamento de Hélcio e Maristela. O casal era tão engajado na comunidade, que até durante as missas o padre convidava os fieis para a cerimônia. Como não ia ter festa, a celebração seria toda durante o rito na igreja.

- O padre convidava na missa: “Quem quiser vir, pode vir assistir”. Todo mundo conhecia a gente ali na comunidade. [...] A igreja lotou, porque nossos amigos foram todos, ficou cheia de gente - contou o casal.

17h30. Apita o árbitro. Bola rolando para Brasil e Holanda. 17h30. Toca a marcha nupcial. Maristela entra em campo, ou melhor, na igreja. Fogos rolando no bairro. Para a Seleção ou para a noiva?

- A hora que eu fui entrar na igreja, que começou o casamento, 17h30, foi aquele festival de rojão. E aí eu entrando na igreja e aquele monte de fogos. Mas muitos fogos, dá para ouvir [no vídeo do casamento]. Hoje, quando eu assisto, eu falo pros meus filhos: “Ó, era tudo pra mim” – brincou Maristela.

Atentos às falas e orações do padre, os pombinhos também procuravam ficar de olho nos convidados para tentarem saber como estava o jogo.

- Durante o casamento, você escutava alguns momentos que soltavam aqueles fogos. E aí você olhava para o lado, um padrinho fazia sinal de um com a mão [Romário abriu o placar]. Aí dali a pouco você escutava outro. E via o sinal de dois com a mão [Bebeto ampliou] - relembrou a noiva.

- Era uma época que não tinha celular nem nada, só que tinha aqueles radinhos antigos, walkman. Tinha um moço que estava com walkman. De repente, estava tudo em silêncio, o padre falando, o casamento correndo, e você escuta “gol!” dentro da igreja - riu Maristela.

Foto da igreja durante casamento entre Hélcio e Maristela — Foto: Arquivo pessoal

“Tetra” no altar e padre no radinho

O casamento “futebolístico” já dava sinais de que o tetra viria dias depois. O casal se baseou no número de padres no altar para criar a teoria.

- A gente era querido na comunidade e a gente tinha alguns amigos padres. E eles diziam: “Quando vocês casarem, eu quero fazer o casamento”. Conclusão, adivinha quantos padres tinham no altar casando a gente? Tetra, tinha tetra, tinha quatro padres - contou Hélcio.

Casamento no ano do Tetra teve quatro padres no altar — Foto: Arquivo pessoal

Na verdade, era para ser o penta logo ali em 1994, a depender da vontade de Hélcio e Maristela. No entanto, o quinto padre estava em outra missão especial daquela tarde de sábado.

- Era um padre mais jovem, logo recém-ordenado e disse: “Tem muito padre lá no altar, eu vou ficar aqui na sacristia”. Pois ele ficou com o radinho ouvindo. Ele estava lá conosco, muito amigo nosso, e ele ficou com o radinho ouvindo o jogo na sacristia. Então seria o penta que ia vir - brincou Hélcio.

Lance de Brasil x Holanda na Copa de 94 — Foto: Getty Images

Alegria em dobro

A partida decisiva entre Brasil e Holanda acabou em 3 a 2. A Seleção abriu com Romário e Bebeto, mas os holandeses deram um tom dramático ao duelo empatando com Bergkamp e Winter. A classificação brasileira só foi garantida aos 36 minutos do segundo tempo, com Branco.

O casal, alegre por terem recebido o sacramento naquele 9 de julho, saiu da igreja já sabendo da classificação brasileira para semifinal, tornando o sábado ainda mais especial.

- Interessante que a hora que eu fui saindo, acho que uma madrinha virou e falou: “Você já sabe?”. Aí eu falei: “Sei! 3 a 2”. Eu estava casando e estava sabendo quanto que o Brasil tinha feito - relembrou Maristela.

Maristela saiu da igreja já sabndo qual havia sido o placar final do jogo da Seleção — Foto: Arquivo pessoal

Toda Copa é especial

De quatro em quatro anos, com exceção do Mundial do Catar, em dezembro de 2022, o casal aproveita a época de Copa do Mundo para relembrar o feito inusitado de 1994.

Neste ano, vão comemorar 32 anos de casados. O matrimônio já rendeu três filhos ao casal, hoje aposentado. E o casamento, que surgiu num dia especial para o esporte brasileiro, carregou para a família o amor pelo futebol.

Família de Hélcio e Maristela é ligada ao futebol — Foto: Arquivo pessoal

Dois dos três filhos de Hélcio e Maristela são narradores esportivos em Araraquara.

- Eu acho bem representativo a gente ter se casado nas quartas de finais de uma Copa e os nossos meninos serem narradores de futebol, gostar tanto de futebol. Eu acho que tudo tem a ver. E acho que era pra ser [no mesmo dia do jogo] e pronto. Eu não mudaria, não. Eu gosto muito de Copa, mas gosto muito mais dele - brincou Maristela.

- Talvez se a gente tivesse como hoje, que tivesse todo o calendário, já sabendo, se a gente tivesse a cabeça que a gente tem hoje em relação ao futebol, por conta dos meninos, talvez não [faríamos no dia do jogo]. Mas eu não me arrependo, eu acho até legal contar essa história – afirmou a noiva.

Família de Hélcio e Maristela se reúne para assistir os jogos do Brasil na Copa do Mundo — Foto: Arquivo pessoal

Já Hélcio diz que hoje em dia poderia ser do time dos convidados que, à época, pediram para mudar a data do casamento.

- Toda Copa não tem como a gente esquecer desse momento. Eu fico indignado hoje, porque a gente torce muito paro Brasil, gosta, acompanha. Aí eu fico imaginando: “Será que tem alguém hoje que marcaria um casamento não pensando em uma data, um evento que vai acontecer?” Acho que hoje é meio impossível, com tanta informação. Então, eu acho engraçado. Talvez hoje eu seria um daqueles convidados que fala “pô, muda esse casamento” - brincou.

*Sob supervisão de Vinícius Alves

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