
Alessandro Brito foi um nome importante na SAF Botafogo nos últimos anos. Ele participava de praticamente todos os processos e explicou como funcionava, internamente, a relação entre os clubes da Eagle durante a gestão de John Textor. Para ele, o modelo multiclubes ajudou o clube carioca, mas a crise entre o americano e seus sócios afetou diretamente o planejamento.
Textor operou Botafogo, Lyon e Molenbeek como uma lógica de "caixa único" com decisões pensadas a partir da Eagle. Segundo Brito, havia reuniões constantes, troca de informações e um planejamento integrado para desenvolvimento de jogadores. Em exclusiva ao ge, o ex-diretor relatou o processo de contratação de um atleta e como a "rede multiclubes" ajudava o Botafogo.
— A gestão das contratações era mais horizontal. Acho que esse era um dos pontos positivos do nosso modelo. A decisão final sempre era do John, até pela responsabilidade financeira, mas participavam do processo. Era um modelo em que todos opinavam e participavam das discussões. Ao final, elaborávamos um relatório, apontando os aspectos positivos e negativos de cada negociação, e o John decidia se a contratação seria realizada ou não - disse antes de continuar:
— Ajudava muito (a rede multiclubes). Durante o Mundial de Clubes, fizemos a última grande reunião da Eagle. Passamos praticamente uma semana reunidos definindo o planejamento de quais jovens jogadores estavam mapeados para fazer o caminho entre Botafogo e Lyon. A cada janela de transferências, esse projeto ficava mais claro. Montoro é um exemplo. Foi uma contratação aprovada tanto pelo Botafogo quanto pelo Lyon. A ideia era que ele permanecesse um período aqui e depois seguisse para o Lyon, ou, caso surgisse uma oportunidade ainda maior, pudesse seguir outro caminho. Isso nunca foi um impeditivo. O projeto estava cada vez mais consolidado - e completou:
— A ruptura desse processo, sim, teve um impacto muito grande. Havia uma troca constante de informações, praticamente quinzenal ou mensal, entre todos os clubes. Todos pensavam conjuntamente no projeto do Botafogo, do Lyon e dos demais clubes da plataforma (...) Quando ocorreu a ruptura, logo depois do Mundial, esse contato praticamente deixou de existir. Perdemos aquela troca constante de conhecimento. Eu já havia trabalhado anteriormente em projetos de clubes parceiros e nunca tinha visto um nível de integração como aquele. Normalmente, cada clube funciona como uma ilha, com sua própria metodologia. Na Eagle, conseguimos construir algo diferente - disse ao ge.
Alessandro Brito, ex-diretor de gestão esportiva do Botafogo — Foto: Letícia Marques / ge
Segundo Brito, o modelo foi positivo, mas o sinal de alerta aconteceu logo após os títulos de 2024, quando o Botafogo conquistou o Brasileirão e a Libertadores, mas o caixa do clube estava zerado. Foram mais de R$ 261 milhões em premiações na temporada mais vitoriosa da história alvinegra.
— Acho que, enquanto funcionou da forma como havia sido planejado, o projeto foi muito positivo. O problema começou quando o John deixou de conseguir cumprir os compromissos assumidos com os investidores. Uma coisa era a parte administrativa e financeira, que era responsabilidade dele. Outra completamente diferente era o trabalho que fazíamos no futebol, pensando em estratégia, mercado e desenvolvimento da plataforma. Quando surgiu essa pressão financeira para dar retorno aos investidores, acredito que houve uma ruptura. Isso aconteceu depois dos títulos de 2024. O clube recebeu receitas importantes naquele período e, de repente, percebemos que o caixa estava zerado - e completou:
— Foi nesse momento que começamos a perceber que alguma coisa não estava fechando. Não digo que fosse algo estranho, porque eu não conhecia a parte financeira, mas era evidente que havia um desequilíbrio. O Botafogo estava financeiramente sólido dentro do futebol. O Lyon já enfrentava dificuldades maiores. Nunca procurei entender em detalhes o que acontecia na administração, porque essa nunca foi minha função. Mas ficou claro para todos nós que aquele era um momento de alerta. Depois dos títulos de 2024, quando chegou 2025 e as dificuldades começaram a aparecer, percebemos que havia algo diferente em relação ao funcionamento daquele caixa único da Eagle - encerrou.
Entre as contratações, Brito liderou um setor de scout que gastou mais de R$ 1 bilhão desde 2022. Ele considerou Igor Jesus como o reforço mais importante de sua passagem pelo Botafogo.
— Quando ele (Igor Jesus) chegou ao Rio de Janeiro, ainda havia propostas interessantes por ele. Mesmo assim, confiou no nosso projeto sem conhecer profundamente o clube. Depois, foi um jogador fundamental nas conquistas dos títulos. Também ajudou muito na valorização econômica do Botafogo e entrou para a história ao marcar o gol contra o PSG. Por tudo isso, considero o Igor Jesus a contratação mais marcante. Além disso, é uma pessoa extraordinária. Mantemos contato até hoje. Sem dúvida, coloco o Igor em primeiro lugar.
Brito deixou o Botafogo no fim de maio e terá o Crystal Palace (Inglaterra) como novo lar a partir de julho. Ele vai assumir a posição de head scout da América do Sul, do Norte e Central. Rodrigo Carvalho, do Vitória, e Fernando Ziskind, do Santos, vão acompanhá-lo.
— Eu sempre acreditei muito no ciclo olímpico. O projeto do Botafogo era de 4 a 8 anos. Quando a gente consolida base, estrutura, processos, o departamento fica sólido. Então o legado foi construído.
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O transfer ban atrapalhou e mudou os planos na janela?
— Claro que dificultou, até se resolver tudo que a gente conseguiu resolver, de sair do transfer ban e tudo mais. A gente teve, sim, uma vontade de trazer o Cuiabano de volta, e ele foi muito sincero com a gente, falou que tinha o interesse do Vasco e não podia esperar por uma situação. Disse que tinha todo o carinho pelo Botafogo, mas não podia esperar e vir para ficar parado e não jogar por seis meses. A gente também teve que ser muito sincero, não poderia travar a vida dele. Nisso, a gente quase perde o Medina. O atleta queria vir muito, era alguém que já tinha tentado em três situações passadas. Nessa situação toda, que a gente não sabia se ia ter o transfer ban ou não, o atleta fala que a gente vai ter que esperar um pouco. Ele estava no melhor momento dos Estudiantes, então ficou em dúvida se viria ou não. Agente conseguiu resgatar e ,passar para ele qualquer ideia do clube, do projeto e considero um grande ativo para o Botafogo. Da maneira que foi, da maneira que a gente conseguiu trazer ele, que é um jogador aí que pode, com certeza, já está ajudando, mas pode chegar em bom nível.
Você pode abrir algum nome que vocês negociaram e não veio para o transfer ban?
— A gente não chegou a negociar jogador, a gente tinha uma lista, mas o único jogador, de fato, que a gente tinha negociado, até pela situação de oportunidade de mercado, era o Medina, que era o único que a gente estava lamentando, por ser, teoricamente, fácil, a viabilidade de um ano estar com a gente, e o clube depende do clube o fato de pagar ou não, não é uma obrigação (de compra). Ficar com um atleta desse nível durante um ano, durante uma temporada, e o clube ter a decisão se quer ficar ou não com ele... É um fato, talvez até o único, não me lembro, de um jogador desse potencial vir nessas condições para algum clube brasileiro.
Houve toda a situação envolvendo o Danilo. Ele acabou sendo afastado e não disputou o 13º jogo no Campeonato Brasileiro. Muito se falou sobre interesse de Flamengo, Palmeiras e até clubes do exterior. Como foi essa decisão?
— Primeiro, é importante lembrar como o Danilo chegou ao Botafogo. A contratação aconteceu muito em função do relacionamento que o John tinha com o Nottingham Forest. Quando ele chegou, todos conheciam sua condição física. Era um atleta bastante debilitado e muito abaixo da melhor forma. O Davide teve um papel fundamental nesse processo. Foi ele quem acreditou no potencial do Danilo e teve paciência para conduzir sua recuperação. Depois veio o Anselmi. Ele foi muito claro desde o início. Disse que o Danilo era o jogador-chave dentro do modelo de jogo dele. Chegou a afirmar: "Esse jogador vai voltar para a Seleção. Ele tem características diferentes e condições de disputar uma Copa do Mundo." O Anselmi também teve enorme importância nesse processo. O clube conseguiu recuperar o Danilo. E quando digo "o clube", falo de toda a estrutura: departamento médico, performance, psicologia, assistência social e comissão técnica. Foi um trabalho coletivo. Quando nos aproximamos da convocação para a Copa do Mundo, cerca de duas semanas antes da lista oficial, aconteceu um episódio importante. O próprio Danilo nos procurou. Durante uma concentração, chamou o treinador e disse: "Estou com medo de me machucar." Essas foram exatamente as palavras dele.
— Naturalmente, existia também toda a discussão sobre o limite de jogos no Campeonato Brasileiro e as especulações envolvendo outros clubes. Mas, oficialmente, não havia nada. O que existia era um desejo muito claro do próprio jogador de chegar saudável à Copa do Mundo. Era o sonho dele desde criança. Também era um objetivo que fazia parte do projeto que desenhamos quando ele voltou ao Botafogo. A partir do momento em que ele manifestou essa preocupação diretamente ao Franclim e ao Léo, entendemos que também precisávamos pensar no clube. Se o atleta não estava totalmente preparado do ponto de vista mental para competir naquele momento, fazia sentido preservá-lo. Foi assim que surgiu a decisão. Enquanto o restante do elenco permanecia focado no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil e na Sul-Americana, o Danilo passou a ser preservado, quase em uma "bolha", para chegar em plenas condições à Copa do Mundo. Posso afirmar, com tranquilidade, que oficialmente não existia qualquer negociação com Palmeiras, Flamengo ou outro clube naquele momento. A decisão foi tomada exclusivamente por causa do desejo do atleta de disputar a Copa do Mundo.
Nesse período, o Botafogo teve alguns treinadores e nomes que surpreenderam bastante. Houve a escolha do Luís Castro, depois vieram outros nomes, como o Davide Ancelotti. Como era esse processo? Quem tomava essa decisão? Era você, com base em algum estudo? Era o John?
— Os treinadores sempre foram uma decisão do John. Quando ele entendia que determinado cargo era estratégico, por ser o dono da empresa, fazia questão de liderar pessoalmente o processo e decidir quem ocuparia aquela posição de liderança. Foi assim na contratação do Mazucco, na escolha de outros executivos que passaram pelo clube e na minha chegada ao Botafogo. Em relação aos treinadores, praticamente todas as decisões passaram pelo John. A única exceção foi o Tiago Nunes. Essa foi, de fato, uma decisão conduzida pelo Mazucco, dentro de um cenário que nós acreditávamos ser o mais adequado. E eu já disse isso várias vezes: o Tiago foi um profissional muito importante por tudo o que aconteceu em 2024. Fora esse caso, todas as demais escolhas foram feitas pelo John. Nosso papel era dar suporte por meio do Departamento de Informação. Fornecíamos dados, números, análises de plataforma de jogo, modelo de jogo e estilo dos treinadores. Mas a decisão final sempre era dele. E acho isso natural. Como proprietário, ele entendia que precisava saber exatamente quem lideraria o processo.
Então era como uma pré-seleção? Vocês apresentavam alguns perfis e ele tomava a decisão final?
— Não exatamente. Nós apresentávamos nomes de acordo com a ideia que ele tinha para o cargo. Ao mesmo tempo, ele também nos encaminhava nomes que eram oferecidos ao clube. Nós tínhamos uma plataforma — na verdade, um grupo específico — destinado apenas a indicações. Toda indicação recebida por qualquer pessoa do clube era colocada nesse grupo de WhatsApp. Isso era muito positivo porque evitava aquela situação de alguém tentar fazer uma indicação diretamente para determinada pessoa. Tudo era centralizado. Todos sabiam quem havia indicado determinado profissional ou atleta e de onde vinha aquela informação. Depois, essas indicações também eram levadas ao John. Isso acontecia não apenas com treinadores, mas também com jogadores. Existia essa central de informações, o que facilitava bastante, porque recebíamos contatos de muitos lugares diferentes e conseguíamos organizar tudo em um único ambiente.
Houve alguma negociação que ficou muito perto de acontecer, mas acabou não sendo concretizada?
— Teve uma que considero muito importante. Era um jogador que acreditávamos que daria continuidade ao trabalho que vínhamos construindo depois das saídas do Luiz Henrique e do Almada. Foi o Bitello. Nós acreditávamos muito no potencial dele. Nossa ideia também era desenvolvê-lo dentro do projeto. Tenho convicção de que, se ele tivesse vindo para o Botafogo em 2025 ou 2026, teria grandes chances de disputar uma Copa do Mundo. Era um atleta que nos ajudaria muito esportivamente e que também alcançaria outro patamar na carreira. Foi uma negociação extremamente difícil. Tentamos de todas as formas. Na época, ainda contávamos com o apoio da Eagle. O Michael Gerlinger participou de várias reuniões. Mas os russos não quiseram negociar de jeito nenhum.
Em 2022, quando o John começa a negociar com Cavani e James Rodríguez, que seriam os primeiros grandes nomes do projeto, imagino que você tenha participado desse processo. Como foi essa tentativa de trazer um jogador de grande impacto logo no início da SAF?
— Esse era um pensamento que o John tinha, muito em função da pouca familiaridade com os mercados brasileiro e sul-americano. A ideia era: se contratarmos dois, três ou cinco grandes jogadores, além de um treinador de renome, conseguiremos competir imediatamente em alto nível na América do Sul. Mas essa era justamente uma preocupação que nós tínhamos. Nós dizíamos ao John que, em vez de trazer um ou dois grandes nomes, talvez fosse melhor contratar dez ou doze jogadores capazes de dar sustentação ao elenco. Precisávamos construir uma equipe equilibrada. Não adiantava ter apenas um Cavani se o restante do time não oferecesse suporte para que ele desempenhasse seu melhor futebol. Com o tempo, o próprio John foi entendendo como é difícil competir no Campeonato Brasileiro e na América do Sul. Não foi que impedimos a chegada desses jogadores, mas entendíamos que, naquele momento, fazia mais sentido montar uma equipe sólida do que investir grande parte do orçamento em um único atleta. E foi isso que acabamos fazendo.
Existe algum jogador com quem vocês chegaram a negociar e cujo nome nunca vazou?
— É difícil lembrar de algum que realmente nunca tenha vazado. Mas teve uma negociação que ficou muito próxima de ser concluída e acabou me marcando bastante. Foi a do Wilson Manafá. Eu e o Mazucco saímos da reunião com a sensação de que estava tudo acertado. Os valores haviam sido combinados, a conversa tinha sido muito boa e entendíamos que o acordo estava fechado. O Mazucco, inclusive, deu entrevista coletiva dizendo que a negociação estava praticamente concluída. Nós chegamos a gravar vídeo com o jogador, conversar com a família, alinhar todos os detalhes. No dia seguinte, porém, eles simplesmente deixaram de atender nossas ligações e o atleta acabou seguindo para outro mercado. Não foi uma negociação que gerou um grande prejuízo ao clube, mas, pessoalmente, me incomodou muito pela forma como aconteceu. Principalmente porque expôs o Mazucco publicamente. Naquele momento, realmente acreditávamos que o negócio estava fechado. Eu valorizo muito a palavra das pessoas. Quando olho alguém nos olhos e existe um compromisso assumido, isso tem um peso enorme para mim, independentemente de já existir um contrato assinado. Foi uma situação bastante desagradável.
Você citou o exemplo do Montoro, que foi aprovado pelo Lyon e pelo Botafogo. Também houve casos em que o Lyon ajudou financeiramente em contratações, como a do Luiz Henrique. Como funcionava essa divisão financeira? Quando um jogador era vendido, como esse dinheiro era distribuído?
— O que acontecia é que havia um único controlador. A plataforma Eagle tinha uma única liderança, que era o John. Claro que existiam investidores e acionistas, mas quem centralizava toda a operação era o John. A ideia que ele sempre nos transmitiu era a de trabalhar com um caixa único para toda a Eagle, e não com caixas separados para Lyon, Botafogo ou qualquer outro clube. É evidente que cada clube precisava respeitar regras de fair play financeiro, além das questões jurídicas e contábeis de cada país, mas, internamente, o conceito era esse: um único caixa.
— Quando fazíamos uma contratação como a do Montoro, por exemplo, o John não pensava apenas no custo para o Botafogo. Ele avaliava quanto aquela operação representava para toda a Eagle e qual poderia ser o retorno financeiro futuro. Dentro dessa lógica, várias negociações foram realizadas entre Lyon, Botafogo e os demais clubes da plataforma. A mensagem que ele sempre nos passava era: "Fiquem tranquilos. A estrutura principal é a Eagle." A Eagle estaria acima de tudo, com Lyon, Molenbeek e Botafogo funcionando dentro de uma gestão integrada, respeitando essa ideia de caixa único. Essa sempre foi a visão apresentada para nós.
Quando vocês conquistaram os títulos de 2024, imaginava-se que o Botafogo daria um passo ainda maior em 2025. No entanto, a janela acabou sendo mais modesta. Esse sempre foi o planejamento ou ele mudou em função dos problemas financeiros?
— Após os títulos de 2024, nossa ideia nunca foi transformar o Botafogo no clube que obrigatoriamente precisaria ser campeão todos os anos. Sabíamos do tamanho do investimento necessário para isso e também dos riscos envolvidos. O objetivo era consolidar o Botafogo entre os cinco principais clubes do continente. Nosso planejamento para 2025 e 2026 era manter uma equipe extremamente competitiva, mas, ao mesmo tempo, fortalecer a categoria de base e investir ainda mais no desenvolvimento de jovens atletas. Depois de conquistar os títulos, entendíamos que era o momento de consolidar a estrutura construída. Queríamos desenvolver jogadores dentro da plataforma Eagle e manter o clube competitivo por muitos anos. Nunca pensamos que seria necessário investir ainda mais apenas porque havíamos conquistado Libertadores e Campeonato Brasileiro.
- Nossa preocupação era construir um legado para o clube. Queríamos um Botafogo competitivo não apenas em 2025 ou 2026, mas pelos próximos dez anos. Talvez tenha faltado comunicar isso melhor. Talvez nós, como clube, devêssemos ter explicado para todos quais seriam os próximos passos do projeto. A expectativa do torcedor sempre será ganhar o Mundial, outra Libertadores, outro Campeonato Brasileiro, e isso é natural. Nós também entrávamos em todas as competições para vencer. Mas nosso foco principal era garantir que o Botafogo permanecesse competitivo a longo prazo. Acho que essa comunicação poderia ter sido feita de forma mais clara.
Como foi estar à frente do departamento de futebol logo após a ruptura da Eagle? Quais foram as dificuldades que você enfrentou?
— O trabalho que construímos entre 2022, 2023 e 2024 colocou o Botafogo em um cenário extremamente competitivo e muito valorizado no mercado. Hoje, quando se fala em Botafogo, tanto jogadores quanto agentes enxergam o clube de uma maneira completamente diferente. Mesmo com todos os problemas que existem atualmente — e que todos nós torcemos para que sejam resolvidos o mais rápido possível —, o Botafogo se tornou uma plataforma muito forte. Os atletas querem jogar no Botafogo. Os treinadores querem trabalhar no Botafogo. As famílias enxergam o clube de outra forma. Quando se fala em Botafogo hoje, existe a percepção de que o clube oferece um ambiente voltado para performance, desenvolvimento e valorização do talento. Por isso, eu separo as coisas. A ruptura entre John, investidores e Eagle não significa que o Botafogo perdeu força. O Botafogo permaneceu estruturado. A estrutura ficou pronta. Independentemente de quem seja o proprietário no futuro, ou de quem venha a investir no clube, existe hoje uma organização consolidada. Esse sempre foi um dos nossos principais objetivos: deixar um legado para o clube e para a torcida. O Botafogo, hoje, é um clube estruturado.
Durante a sua passagem, falou-se muito sobre o trabalho do departamento, principalmente pela quantidade de jogadores que o Botafogo encontrou e que deram certo. Na sua visão, qual foi o diferencial implementado por vocês? Como funcionava esse processo de busca por atletas? O que foi revolucionado naquele departamento?
— Acho que o grande diferencial foi a criação de um verdadeiro departamento de informação. Na minha visão, o scout é apenas um dos braços desse departamento, algo que eu já tinha como objetivo implantar em algum clube. Quando falo em departamento de informação, estou falando de várias áreas voltadas para a performance do atleta, de forma que o tomador de decisão — seja o presidente, o CEO ou o executivo de futebol — tenha todas as informações necessárias para tomar a melhor decisão para o clube. Quando cheguei, já existia uma estrutura com dois scouts, o Rafa Rezende e o Bruno, além de três analistas de desempenho que já trabalhavam no antigo Botafogo: o Alf, o Vinícius e o Miro. Minha ideia era criar um departamento que reunisse a captação da base, o scout profissional, um setor de analytics e um departamento de liaison (departamento de ligação), responsável por todo o processo de chegada dos atletas, pelo acompanhamento deles e pela parte administrativa relacionada aos contratos e investimentos. A proposta era integrar cinco ou seis departamentos em uma única estrutura capaz de gerar informações para o John, para o Mazucco e para a comissão técnica. Seríamos um grande banco de informações do futebol, reunindo dados de performance, mercado e analytics. Foi assim que começamos a construir esse departamento. Ao mesmo tempo, o Botafogo havia acabado de subir da Série B para a Série A. Então, precisávamos pensar também na permanência do clube na primeira divisão, enquanto estruturávamos todo esse departamento de informação. Por isso, a prioridade inicial foi garantir a permanência na Série A. Muitas das contratações daquele primeiro momento tiveram exatamente esse objetivo. Paralelamente, fomos construindo toda a estrutura de inteligência, tecnologia e informação do clube, para que essas duas frentes evoluíssem juntas. A ideia era chegar a um ponto em que o Botafogo tivesse uma base sólida, uma estrutura pronta e condições de se consolidar entre os cinco ou seis principais clubes do Brasil e disputar títulos de forma constante também na América do Sul. Esse sempre foi o nosso objetivo.
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